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Surtos de gripe aviária: o que temos a ver com isso?


Autoridades do Reino Unido confirmaram que uma pessoa que vive no sudoeste da Inglaterra contraiu a gripe aviária, proveniente de um surto que está acontecendo na região. Esta pessoa passa bem, mas se mantém isolada, seguindo as recomendações médicas. As pessoas com quem ela teve contato estão sendo monitoradas. 

Há alguns meses a Organização Mundial da Saúde (OMS) advertiu que o novo coronavírus não será a última pandemia e lembrou que os avanços sanitários serão insuficientes se não houver mudanças com relação ao bem-estar animal e à questão climática. 

Para entendermos mais sobre os surtos como a gripe aviária, bem como de outras doenças provenientes de animais, COVID-19, SARS, MERS entre outros, precisamos ir mais a fundo, chegando à raiz do problema. No texto de hoje, explicaremos sobre como a nossa relação de não respeito aos animais pode resultar em consequências catastróficas, e buscaremos esclarecer algumas dúvidas sobre o assunto.

Como é feito o sacrifício dos animais afetados pela gripe aviária?

Estamos vendo um número crescente de casos em aves, tanto em fazendas comerciais, quanto em pequenas criações em todo o país. (…) Tomamos medidas rápidas para limitar a propagação da doença no local em questão, todas as aves infectadas foram sacrificadas humanamente e a limpeza e desinfecção das instalações estão em andamento. Isso é um lembrete de que a limpeza rigorosa ao manter os animais é importante

Christine Middlemiss – veterinária-chefe do Reino Unido

Ao todo, estima-se que um milhão de aves tenham sido mortas dessa forma, apenas neste caso, onde o vírus da gripe aviária foi confirmado pela primeira vez em Lincolnshire, no Reino Unido, em 11 de dezembro. 

O que poucas pessoas sabem é como de fato esses animais são sacrificados em situações como estas. Granjas não são estabelecimentos com estrutura para matar milhares de animais em um curto espaço de tempo, por isso, existem vários problemas de bem-estar nesse tipo de procedimento chamado de “depopulação”. Muitos métodos de depopulação não insensibilizam o animal antes da morte e não levam em conta o sofrimento dos animais. A ciência ainda não tem a resposta de qual método é o ideal para esse tipo de procedimento.

No Brasil, outro problema é a falta de fiscalização. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) há muitos anos afirma que não tem fiscais suficientes, assim, muitas vezes o sacrifício de milhares de animais é feito sem fiscalização adequada, ficando sob responsabilidade do proprietário da granja escolher e executar o método, mesmo que na granja não existam pessoas qualificadas para este procedimento.  

No Brasil e ao redor do mundo circulam imagens de aves sendo enterradas ou queimadas vivas. No Brasil também é usada uma espuma que invade o galpão e provoca asfixia nas aves. Outros métodos de depopulação são o uso de gases como CO2 e CO, métodos mecânicos como pistolas de dardo cativo, deslocamento da coluna cervical e choques (eletrocução e eletronarcose em água), todos aprovados pelo MAPA

A vida de um frango

Fora do contexto de um surto de gripe aviária, a vida dos frangos nas fazendas industriais também não é nada fácil. Desde seu nascimento até o momento do abate, os animais passam por diversas situações que lhes trazem sofrimento e os privam de ter qualidade de vida.

Os problemas da seleção genética 

Um dos maiores problemas na criação de frangos ocorre devido à intensa seleção genética, que em nome do aumento na efetividade da produção de carne de frango, deforma os corpos dos animais. Este procedimento é  realizado  para que os frangos ganhem mais peso no menor tempo possível. Para se ter uma ideia, em 1930, o frango pesava em média 1,5 kg, com a idade de abate de 105 dias. Hoje o frango é abatido com quase 3 kg e 42 dias de vida.

Frango que não consegue se locomover devido ao excesso de peso corporal e fragilidade e dores ósseas. Fonte: Animal Equality International

Essa intensa seleção genética trouxe vários problemas de saúde para esses animais. Frangos são animais doentes, que sofrem de enfermidades ósseas e metabólicas.

Vivendo em meio às fezes e urina

No chão das granjas  é utilizado  um substrato que geralmente é  composto de vegetais, como por exemplo maravalha ou sabugo de milho triturado. Esse substrato é chamado de “cama” pelos produtores, mas não  por algo confortável para os animais, muito pelo contrário. Nesta cama se acumulam as excretas (fezes e urina) dos frangos, e raramente ela  é limpa. Os produtores  trocam  a cama depois de quase um ano de uso. Isso significa que durante todo esse tempo milhares de frangos defecaram e dormiram em cima das suas fezes e de fezes de outros animais que também viveram naquela granja. 

A cama acumula um alto teor de amônia, que é uma substância presente nas excretas. A amônia provoca queimaduras muito dolorosas na pele dos animais e irrita o aparelho respiratório e ocular, tornando esse ambiente insalubre não só para os animais, mas também para os funcionários. 

A ausência de penas é devido as queimaduras provocadas pela amônia. Fonte: Animal Equality International

Vivendo no escuro e sem possibilidade de interação com o ambiente

Quando se faz uso da iluminação artificial nos galpões, visando aumento da produtividade, o padrão utilizado nas granjas é entre 1 a 6 lux, o que deixa o ambiente muito escuro. Em comparação, um escritório de trabalho tem luminosidade entre 500 a 750 lux. Tal prática é justificada pela indústria dizendo-se que os animais ficam mais tranquilos, mas é importante destacar que um animal calmo é muito diferente de um animal apático com dificuldades de locomoção em um ambiente com pouca luminosidade. 

Galpão com baixa luminosidade, nota-se que a luz iluminando a Rooney Mara vem do equipamento de filmagem e fotografia. Fonte: Animal Equality International

Sem ter o que fazer ou algo para se entreter

A maioria das granjas não possui nenhum tipo de estrutura para enriquecer a qualidade de vida dos frangos. A adição de itens como poleiros, plataformas, fardos de palha e objetos de bicadas melhora a saúde das pernas e aumenta os níveis de atividade das aves, contribuindo assim para o bem-estar animal. Apesar de ser uma implementação extremamente simples e de baixo custo, as granjas não oferecem esse tipo de enriquecimento ambiental para as aves. Com isso, as aves não manifestam seus comportamentos naturais, ficando mais estressadas e frustradas, o que contribui para fragilizar o seu sistema imunológico, contribuindo para o aparecimento de doenças.

Sem espaço para se locomover

Apesar dos frangos não viverem em gaiolas como as galinhas poedeiras, eles também enfrentam severas restrições de movimentação, pois são milhares de animais em um mesmo galpão. Com isso, eles quase não conseguem abrir as asas e se alimentar e ingerir água pode ser algo desafiador, pois o frango precisa ir se espremendo entre os outros frangos para conseguir chegar até o bebedouro e comedouro.

Uma morte lenta e agonizante

Os animais menores, mais fracos e/ou doentes morrem antes de chegarem no dia do abate. Os animais que estão muito pesados e que sentem muitas dores nas pernas e, por isso, não conseguem caminhar, então acabam morrendo de fome. Quando os funcionários identificam animais  que não serão capazes de  se alimentar, eles quebram o pescoço desses animais  ou os arremessam contra a parede  para  sacrificá-los. Esta é uma morte extremamente cruel, mas o pior é que, em meio a milhares de frangos dentro de um mesmo galpão, os funcionários não conseguem identificar todos que não estão conseguindo se alimentar, então esses animais acabam morrendo de fome e de sede, uma morte lenta e desumana. É assustador pensar que os animais mais frágeis são mortos ou deixados para morrer apenas porque não tem capacidade de chegar até o comedouro.

Frango morto em meio a outros animais. Fonte: Animal Equality International

Ausência de tratamento veterinário para cada animal

Como um animal individualmente  tem um valor econômico muito baixo, esses animais não recebem tratamento veterinário de forma atenciosa, pois os produtores dizem que o tratamento é mais caro do que a perda financeira com a morte do animal antes do abate. Na avicultura de corte, os medicamentos são oferecidos apenas quando praticamente todos os animais ficam doentes, então esses medicamentos são colocados diretamente na água ou na ração.

Frangos que não recebem tratamento veterinário e acabam morrendo antes do dia do abate. Fonte: Animal Equality International

Um ambiente contaminado por diversos microrganismos

Os frangos sofrem com inúmeras infecções, principalmente infecções intestinais e respiratórias, devido ao ambiente das granjas estar repleto de fezes e animais mortos em decomposição. Além disso, todo esse ambiente inadequado das granjas gera muito estresse nos animais. Os hormônios relacionados ao estresse são capazes de reduzir a resposta imune do animal. Assim, esses animais acabam se tornando mais suscetíveis a essas infecções. Este é o ambiente ideal para proliferação de bactérias e vírus. 

Frango em estágio avançado de decomposição. Fonte: Animal Equality International

A limpeza rigorosa das granjas e o bem-estar dos animais estão sendo respeitados?

Não! E isso está longe de acontecer. No Brasil, cerca de 7 bilhões de frangos são abatidos por ano, depois de viverem uma vida de muito sofrimento. A seguir iremos contar apenas alguns dos problemas de bem-estar que esses animais enfrentam.

Como surgem as pandemias?

Como se pode notar pelos fatos compartilhados acima, as granjas e fazendas industriais são o ambiente ideal para o surgimento de novas doenças que afetam os animais de produção, mas também os seres humanos. Pandemias como o COVID-19 podem ser vistas como um resultado da forma como as pessoas criam, alteram seus ambientes, trocam ou compram, e consomem animais. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUD) lançou em 2020 um relatório sobre o COVID-19 e sobre como prevenir futuras pandemias. O relatório destaca os sistemas alimentares como potenciais causadores de novas pandemias e enfatiza  que a maioria das zoonoses (doenças transmitidas entre animais e humanos) descritas no texto ocorre indiretamente através desses sistemas. Cerca de 80% dos patógenos que infectam animais são “multi-hospedeiros”, o que significa que eles se movem entre diferentes hospedeiros animais, incluindo, ocasionalmente, humanos. Os autores citam sete “motores de doenças” que são mediados pelo homem e que estão provocando o surgimento de doenças zoonóticas, quatro dos quais  têm relação direta com fazendas industriais: 

1) Aumento da demanda humana por proteína animal; 

2) Intensificação agrícola insustentável, em particular a criação de animais; 

3) Aumento do uso e exploração da vida selvagem, por exemplo, por meio de desmatamentos. É válido destacar que 80% do desmatamento no Brasil é causado pela pecuária; 

4) Mudanças climáticas, desmatamentos e emissão de gases de efeito estufa pela indústria da carne. No mundo inteiro, cientistas monitoram diferentes patógenos com potencial pandêmico. Os vírus da gripe aviária, em particular, estão evoluindo para um grande conjunto genético de vírus, circulando em um reservatório de aves, incluindo aves selvagens e de produção de alimentos, e, ocasionalmente, infectam suínos e humanos. Em julho de 2020, a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) fez um alerta global informando que casos de gripe aviária foram detectados no sul da Rússia e no Cazaquistão. Desde agosto daquele ano, a migração de aves para áreas mais quentes tem causado o aparecimento de casos em países da Europa e da Ásia. Desta forma, milhões de frangos e galinhas estão sendo sacrificados para que a doença não continue se espalhando.

Fervidos vivos e conscientes

A morte é sempre um momento triste e desesperador para qualquer animal. Entretanto, o abate de frangos é ainda mais crítico. Isso acontece porque a linha de produção é muito mais rápida nos frigoríficos de aves do que de outros animais, assim, muitos frangos não passam de forma adequada pelos processos que poderiam minimizar a sua dor e sofrimento. Existem falhas no processo de insensibilização que é o procedimento necessário para que o animal fique inconsciente e não sinta dor. Dessa forma, muitos frangos estão conscientes e sentindo dor quando têm seus pescoços cortados. Um outro grande problema no abate de aves é que muitos frangos passam pela sangria, que é o corte do pescoço que leva a morte do animal, de forma inadequada e isso faz com que os frangos sejam destinados ao banho de escalda – tanque com água fervendo no qual os frangos são mergulhados que a pele seja amolecida e as penas possam ser retiradas com mais facilidade, fazendo com que eles sejam fervidos ainda vivos.

Os frangos são animais inteligentes

Vários pesquisadores já provaram que frangos são animais muito inteligentes, afinal, essas aves entendem o conceito de números e podem executar operações aritméticas simples. Elas também demonstram capacidade de autocontrole, de planejar com antecedência suas ações, de sentir  empatia quando outras aves estão em perigo e possuem um avançado sistema de comunicação, entre outras características. 

Sabendo que os frangos são animais com capacidades intelectuais e emocionais e tendo conhecimento sobre a forma cruel que eles são criados, não podemos ignorar essas realidade. Precisamos refletir os produtos de origem animal de origem animal que colocamos em nossa mesa.

O que podemos fazer para ajudar os animais?

Sabendo de todas essas coisas terríveis que acontecem com os animais nas fazendas e granjas industriais, você deve estar se perguntando o que cada um de nós pode fazer para mudar esse cenário. 

A carne de frango é a mais consumida no país, principalmente por ser a carne mais barata. O brasileiro come em média, cerca de 42 kg de frango por ano. O que poucos consumidores sabem é que para produzir carne barata, os animais pagam o preço com uma vida de extremo sofrimento e no fim de suas vidas ainda são abatidos de forma cruel. Sendo assim, repensar a alimentação e deixar os animais fora do prato é uma forma de protegê-los do sofrimento, mas também a forma mais efetiva de proteger a Humanidade do risco de novas pandemias.  A melhor forma de proteger os animais é deixá-los fora do seu prato – saiba como! Consumir animais é um risco para a humanidade e também provoca o sofrimento de bilhões de seres inteligentes e sensíveis. 

Um grupo que está protegendo os animais: nos ajude a criar leis para eles! 

A Animal Equality tem um programa de voluntários remoto, chamado Protetores de Animais, no qual você pode começar a ajudar os animais agora mesmo, sem precisar sair de casa. Assim que você se inscrever, você começará a receber uma série de ações simples como assinar uma petição, compartilhar um post, comentar nas redes sociais, entre outras. Ações que parecem simples, mas que são essenciais para mostrar que somos MUITOS lutando a favor daqueles que não têm voz. Essa é a melhor forma de apoiar os nossos departamentos de Responsabilidade Social Corporativa e de Advocacy, que se dedicam a influenciar empresas e governo a acabar com as piores práticas que acontecem com os animais na indústria de alimentos.

Para receber alertas de projetos de lei ou políticas corporativas que ajudam os animais, inscreva-se!


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